terça-feira, 21 de abril de 2015

"Aprendi, desde cedo, a me sustentar. Nunca quis ser a princesa que ganha roupas e jóias caras do príncipe que lhe venera – e hoje falo o que penso e bebo às minhas custas, graças a Deus. Nunca quis um príncipe que me endeusasse. Sempre me atraiu mais um cara qualquer que compreendesse minhas frustrações, minhas loucuras, minhas esquisitices. E que fosse esquisito também, de preferência. Não me interessa ser conquistada, venerada ou posta num altar. Por isso não me venha com elogios prontos, apelidos no diminutivo, buquês cheirosos, caixinhas de bombom e anéis de noivado. Não espere de mim doçura, delicadeza e mãozinhas finas de quem nunca precisou pegar no pesado.Felizmente, ou infelizmente, não cresci num mundo encantado nem num castelo de mentiras. Eu gosto é da verdade. E se você puder me oferecer a verdade – mesmo que ela não seja bonita como nas histórias de felizes para sempre – será realmente mais valioso que qualquer chocolate caro que você possa ter pensado em comprar.Um mundo real, com pessoas reais e sentimentos reais – e não joguinhos de conquista mal-encenados – que tenha homens suficientemente corajosos para assumirem que não são príncipes coisíssima nenhuma. Onde eu possa ter as unhas curtas e usar roupas mais confortáveis que bonitas. E viver ao meu modo, como protagonista de uma peça que nunca vai estrear, porque a vida é melhor na coxia. É isso que eu quero pra mim. Eu não espero um príncipe que me liberte: como a mais autêntica não-princesa, eu posso ser livre pelos meus próprios esforços."

Futebol. G.E. Brasil.

Está marcado para amanhã, dia 17 de abril do ano de 2015, o início das obras de demolição de partes do meu antigo e amado Estádio Bento Freitas.
Bem, eu não queria ser clichê, mas sinto um misto de profunda tristeza e grande alegria ao presenciar essa grande mudança no nosso Templo. Dizemos, nós Xavantes, que torcer para o Grêmio Esportivo Brasil é mais do que amor, torná-se uma religião ao exato momento em que presenciamos as melhores e as piores horas dentro de nossa "segunda casa". E é exatamente isso que eu gostaria de lembrar.
A poucos anos atrás, logo após uma final contra o Juventude, onde precisávamos apenas ganhar de 1x0, eu tive a infelicidade de ver a massa rubro negra chorando, desolada pelos 16 degraus da nossa sala de estar. Eu não entendia muito bem como alguém podia chorar daquele jeito por "um time de futebol". Saí revoltada de lá, não conversei com ninguém durante o resto daquela noite e me surpreendi muito quando ao ver as reportagens na televisão durante o outro dia meu olho encheu d'água. É amigos, acreditem.
No velho Bento Freitas eu fiz amigos. Tive inúmeras histórias e muito apoio. Nos momentos mais difíceis, eu tirava algumas horas para ir pagar a mensalidade e ficar sentada na arquibancada sozinha, só pensando em tudo que tinha visto e no ainda iria ver. Imaginando as glórias, os gols históricos (dignos de G10) e os jogadores loucos (e sempre aguerridos) que poderiam vestir nosso manto vermelho e preto. Ficava viajando mesmo, sem sair do lugar. E bem, lá... Lá eu encontrava uma paz que nenhum outro lugar poderia me trazer.
Por tantas vezes foi na Baixada que eu me encontrei. E não só o fato de "estar", mas sim o "ser". Vi coisas que me acrescentaram muito. Vi outras que me frustaram e até medo me fizeram sentir. Diria inclusive que esse antigo estádio tem uns 30% do que eu sou hoje, só pelos inúmeros aprendizados.
E hoje, véspera de sua "mudança de roupas", eu queria agradecer a ele por tudo que eu vivi, àquelas arquibancadas, àqueles degraus, àquelas rachaduras e até àquele cimento quente nos dias de verão. Eu queria dizer que não estou pronta para lhe ver vulnerável, sem tudo que eu já conhecia desde o primeiro dia que lhe vi, mas vou vibrar com suas melhorias e suas mudanças.
Que em breve você volte a ser exatamente como no nosso primeiro encontro (Brasil x América-MG) -VOCÊ FEZ COM QUE EU ME APAIXONASSE. E volte também a ser a minha segunda casa, mais forte, mais bonita e palco de bons momentos... Grandes lembranças.
Ao nosso, para sempre, Caldeirão. E seus saudosos 16 degraus, construídos com o esforço e a devoção de uma torcida apaixonada.